
Conheci o professor Alejandro ainda na graduação. Na mesma PUC-Rio onde ele havia conhecido dona Wilma, o amor de sua vida. Eu não sabia, naquele primeiro ano de curso, que estava diante de um homem que iria me acompanhar por décadas, primeiro como professor, depois como amigo.
Foi na pós-graduação que entendi uma coisa: a paciência do professor Alejandro não era cortesia destinada aos calouros. Cada franzir de testa dele era uma aula. Cada olhar gentil, uma correção.
Quando lhe perguntavam se era argentino (e faziam isso com alguma frequência), ele retrucava com a precisão de quem não tolera imprecisão: "Sou espanhol." E era. Espanhol no sotaque, espanhol no humor seco, espanhol naquela maneira de escutar antes de responder. Mas tinha encontrado no Brasil uma comida pela qual se apaixonou. Era um connaisseur de feijoada. Lembro de uma vez em que comíamos juntos e ele me disse, com aquela seriedade dele que não admitia ironia: "Melhor do que uma feijoada, é uma boa feijoada. E essa é uma boa feijoada." É uma frase que parece pequena. Não é. Ali estava a recusa do superlativo barato, a insistência em distinguir o que merece elogio do que não merece.
A cena que me marcou mais fundo aconteceu num seminário. Um colega abriu a apresentação despejando críticas sobre o texto que deveríamos ter lido. O professor Alejandro o interrompeu sem levantar a voz: "Antes de criticar, vamos ler direito o texto." E nos mostrou o que nenhum manual de metodologia havia nos ensinado: que a primeira tarefa de todo pesquisador é a compreensão.
Com ele aprendi também a relação certa com o erro. O professor Alejandro sabia que ensinar não é censurar enganos. É fazer ver que é nos enganos que se aprende. Pesquisador maduro não foge do erro: ele o procura, porque sabe que é ali, e só ali, que o acerto se forma.
Lembro do dia em que ele se aposentou. No dia seguinte nos falamos, e ele me perguntou se poderia assistir às minhas aulas. Foi numa segunda-feira que apresentei o professor Alejandro aos meus alunos e me apressei a lhe passar a palavra. Ele disse, simples: "Estou aqui para ouvi-lo." E por anos esteve presente, ouvinte e interlocutor, onde antes era ele quem conduzia. Só muito tempo depois, numa conversa de café, entendi o porquê da frase. Ele me contou que tinha ido naquele primeiro dia para me apoiar, e que, mesmo assim, era a mim que ele agradecia. Sua vida, que fora toda a Universidade, havia sido prorrogada.
Caminhávamos ainda em direção ao café quando ele acrescentou, como quem fala consigo mesmo: "Na PUC, os mais antigos apoiam os mais jovens. Depois, os jovens apoiam os mais antigos." Os olhos dele se perderam por um instante. E foi ali, em pé, no meio do caminho, que ele me contou como tinha conhecido dona Wilma. Eu o escutei como ele me ensinara a escutar: primeiro entender, só depois pensar. Levei aquele início de tarde para a memória, e ali ficou.
Estive em sua casa algumas vezes, na companhia adorável de dona Wilma. Vi o que talvez não se veja na sala de aula: no rosto do professor Alejandro havia o olhar de uma criança que ele nunca deixou de ser. Curiosidade intacta, capacidade intacta de se admirar com as coisas. Alejandro nunca foi homem de superfícies. Para conhecê-lo, era preciso tempo. Tive a sorte de ter tido esse tempo, para conhecer o professor, o marido devoto e, antes de tudo, o grande homem que ele foi.
Adrian Sgarbi
Rio de Janeiro, 26 de abril de 2026.
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